Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

A M.J.

O sr. P. tinha medo do frio:
- Não desse frio que faz descer o mercúrio nos termómetros - explicou desenrolando o cachecol - mas sim desse frio que faz quando olhamos para dentro e está vazio.

A sra. P. abraçou-o e P. agradeceu-lhe esse agasalho do frio que assusta.



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Terça-feira, Janeiro 10, 2012

O sr. P. já pouco se lembrava do quanto lhe custara caminhar no mês passado e por isso arrumou a bengala no armário das coisas a que dava pouco uso.

Sexta-feira, Setembro 23, 2011

Domingo, Junho 26, 2011

- Quando se gosta - dizia o Sr.P. - dizer adeus é, tal como é quando só se conhece de vista, apenas um aceno...
- Só que quando se gosta - continuou ainda - a curva do aceno é do tamanho da linha equatorial e por tal é comprida que abraça o mundo por inteiro...

Bebe um gole Sr.P que o que dizes é demasiado grande para se dizer de uma vez:

- e longa que dura o tempo todo de dar uma volta ao mundo.

- É por isso também que há pessoas, mais preguiçosas ou só mais apressadas, que, enquanto vão gostando, vão também já acenando esse adeus geodésico.

Dito tudo isto o Sr.P. foi-se despedindo das pessoas, com acenos mais curtos ou com acenos mais largos, conforme o que gostava de cada um dos convivas...



Terça-feira, Junho 21, 2011

Já o tinham inquirido. Como não respondia e mantinha a mesma cara fechada fitando o copo como se fosse um telescópio apontado ao fim do mundo, repetiram a pergunta:
- Que tem hoje Sr. P.?
- Nada - disse - só que hoje sinto como se o meu Eu não tivesse muito em comum com o Outro.

E por ser verdade acenaram todos que sim:

mas ninguém o compreendeu.

Terça-feira, Maio 31, 2011

Faltava um azulejo na casa de banho do Sr. P.:

- Falta um azulejo que me faz falta.

Quando saiu à rua faltava uma pedra na calçada:

- Falta uma pedra que não me faz falta.

Quando chegou à praia:

-Não saberia dizer se falta um grão de areia quanto mais se me faria falta, é provável que falte e é certo que não me faz falta. - e depois concluiu - e esse é o problema das cidades com muitos habitantes.

Segunda-feira, Março 21, 2011

O Sr. P. tinha um personagem a que chamava:
- O meu fantasma!

O Fantasma era a criatura onde P. podia projectar tudo quanto não era capaz de ser.

- Logicamente, - confessava o Sr. P., embriagado - nesta questão de ele ser o que eu não sou, cada vez que sou menos, ele é mais.

Suspirou.

- Quanto mais deixo de ser o que quero ser capaz, mais o Fantasma é criatura. Denso e carnal.

Pousou o copo e foi embora.

A tristeza do Sr. P. era saber que um dia, cada vez mais perto, apertaria a mão a esse Fantasma:

- Não como cordialidade, mas como uma despedida de mim próprio...